Sexo frágil? Livro desconstrói estereótipos sobre mulheres propagados pela ciência

Foto: Divulgação

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Para ela, o machismo que manteve as mulheres fora desse campo durante anos também impregnou a própria ciência – mas, agora, novas perguntas são feitas e velhas hipóteses estão sendo contestadas. Como, por exemplo, a descoberta, com primatas, de que, enquanto os machos eram considerados mais violentos e assertivos, as fêmeas só eram consideradas calmas e submissas porque ninguém estava perdendo tempo olhando, de fato, para elas.

– Ciência deveria ser imparcial, mas isso não significa que sempre seja. Não conseguimos evitar o viés e o preconceito. Então, de certa forma, apesar de a ciência ter o poder de nos dar fatos verdadeiros, que derrubam mitos, nem sempre faz isso. Muitas vezes, cientistas entendem errado e perpetuam ideias falsas e datadas.

Já no começo do livro, é possível ler sobre a troca de cartas entre Charles Darwin (1809-1882), autor da teoria da evolução pela seleção natural e sexual, e Caroline Kennard (1827-1907), cientista e feminista americana que desafiou as opiniões do naturalista sobre a inferioridade das mulheres. Para Caroline, estava claro algo que Darwin não conseguia enxergar: tendo as mesmas oportunidades, mulheres e homens chegariam, no geral, aos mesmos resultados no que se propusessem a fazer. O exemplo ilustra a importância do movimento feminista na hora de apontar e questionar premissas que retratam mulheres como intelectualmente inferiores há séculos.

– As feministas estão fazendo um favor à ciência. É claro que isso não significa que a política deva estabelecer uma agenda científica, mas que, quando a política está prejudicando a pesquisa, a mesma política é necessária para corrigir os danos.

Em cada capítulo, Angela traz um recorte de mitos que colaboraram para a ideia de que as mulheres são o sexo frágil – e entrevista autores de estudos que trazem resultados diferentes sobre o mesmo assunto. Mostra que o ceticismo ao acessar certos materiais talvez seja indispensável: se existem diferenças biológicas entre os sexos, faz sentido querer conhecê-las mas, também, ela explica que precisamos ser capazes de compreender e levar em consideração essas diferenças na hora de buscar uma sociedade mais igualitária.

E, destaca Caroline, vale lembrar: um estudo que mostra que mulheres são piores lendo mapa ou se localizando é simplesmente desmentido por outro, aplicado em uma população diferente, em que mulheres leem mapa e estacionam melhor. O esforço científico em mostrar que diferenças comportamentais são biológicas tem um prejuízo não apenas em indivíduos isolados, mas também na sociedade.

– A ciência é um reflexo da sociedade, e a sociedade também se desenha a partir da ciência. Se a ciência melhora, todos nos beneficiamos – diz a autora.

Ilustra: Edu Oliveira

Ilustra: Edu Oliveira

3 mitos em xeque

Confira ideias e lugares-comuns que a ciência comprovou um dia e que agora são questionados por novos estudos, como destaca Angela Saini:

O homem caçava, enquanto a mulher só cuidava da prole

Durante muito tempo, o papel das mulheres foi considerado totalmente secundário para a evolução – já que a caça foi a responsável pela nutrição que ajudou a desenvolver nosso cérebro, pelo estímulo à criatividade e pela união e criação de grupos em torno de um objetivo comum. À mulher, cabia o cuidado com as crianças e uma vida bem menos desafiadora. Hoje, estudos antropológicos mostram que a história não teria sido bem assim. Por exemplo, ao observar comunidades de caçadores-coletores da África Meridional, cientistas viram que a coleta das mulheres fornecia até dois terços dos alimentos do grupo. As mulheres também eram responsáveis por cozinhar, construir abrigos e ajudar nas caçadas – indicativos de como deve ter sido a organização dos nossos antepassados. Outro exemplo vem de uma comunidade chamada nanadukan agta, nas Filipinas, onde as mulheres caçavam porque queriam – mesmo quando tinham meios alternativos para se alimentar.

Homens transam com diferentes parceiras enquanto mulheres são mais castas

A seleção sexual é um dos aspectos da teoria da seleção natural de Darwin e, a partir disso, vários estudos apontam como um fator biológico o fato de homens terem comportamento mais promíscuo enquanto mulheres seriam mais castas. Uma série de estudos – que envolveram desde experiências em que universitários eram chamados por um estranho para transar até análise do comportamento de moscas – demonstrou que homens têm relações com pessoas que não conhecem, enquanto mulheres não. Uma das justificativas é de que o homem pode se beneficiar em ter várias parceiras para a evolução da espécie. Já, para a mulher, isso não faria diferença: como a gravidez e os cuidados com o bebê tomam muito tempo, ela se beneficiaria mais dos cuidados de um único parceiro do que de vários. No entanto, Angela Saini compila pesquisas que revelaram o oposto: acasalar com diferentes machos é muito comum entre as fêmeas – tanto de primatas, nossos parentes mais próximos, quanto de outras espécies, como pássaros, esquilos, gafanhotos e por aí vai. E mais: todos apontam que as fêmeas têm maior êxito reprodutivo quando se acasalam com mais machos. Se biologicamente a ideia de mulheres mais castas não faz sentido, culturalmente também não deveria fazer, como se vê em algumas sociedades. Um exemplo é a cultura himba, uma sociedade indígena parcialmente nômade da Namíbia, que encara com tranquilidade que mulheres casadas tenham amantes, oferecendo mais autonomia e liberdade para as mulheres decidirem com quem farão sexo.

Mulher é o sexo frágil

Continuamos a pensar no sexo masculino como o sexo mais robusto e poderoso. Angela Saini mostra que, apesar de os homens de fato serem, em média, 15,2 centímetros mais altos e terem cerca de duas vezes mais força na porção superior do corpo, quando o assunto é sobrevivência, o corpo das mulheres tende a ser bem mais equipado que o deles. Desde o nascimento, a chance de sobrevivência das mulheres é maior do que a dos homens. A autora traz uma pesquisa sobre mortalidade infantil que engloba dados do mundo inteiro, mostrando que, no primeiro mês de vida, os meninos têm 10% mais chances de morrer do que as meninas, tudo por razões biológicas. Eles têm 14% mais chances de nascer prematuros e, quando no mesmo estágio de prematuridade que uma garota, têm mais chance de desenvolver desde cegueira até paralisia cerebral. E continua: mulheres adoecem mais do que homens, mas seu corpo se recupera mais rápido. Um estudo publicado nos Estados Unidos, em 2010, mostra que, das 15 causas mais comuns de morte, como câncer e doenças cardíacas, em 12 delas o número de mulheres que morreram foi menor. Uma das hipóteses levantadas pelos cientistas diz respeito ao fato de as mulheres poderem ter filhos: uma gravidez equivale a um tecido estranho se desenvolvendo dentro do corpo e apenas um sistema imunológico capaz de passar de reações pró-inflamatórias a reações anti-inflamatórias para evitar um aborto a cada gravidez.

Ilustra: Edu Oliveira

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